sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Cientistas usam DNA para projetar proteína artificial viva

Cientistas da Universidade de Yale (EUA) conseguiram fazer uma re-engenharia das estruturas produtoras de proteína de uma bactéria.

Segundo o grupo, a demonstração "promete revolucionar o estudo e tratamento de uma variedade de doenças".

Por outro lado, conhecidos como biologia sintética, ou mesmo "vida artificial", esses experimentos levantam vários questionamentos éticos dentro da própria comunidade científica, por não estarem ainda delineados os limites dessas pesquisas.

"Essencialmente, nós expandimos o código genético da E. coli, o que nos permitiu sintetizar formas especiais de proteínas que podem imitar estados naturais ou doenças," explicou Jesse Rinehart, um dos autores do artigo que descreveu a pesquisa na revista Science.

Há poucos dias, um outro grupo anunciou a criação de um animal com informação artificial no código genético.

Biologia sintética

Desde que a estrutura do DNA foi desvendada, na década de 1950, os cientistas têm trabalhado para entender a natureza do código genético.

Décadas de pesquisas e avanços recentes no campo da biologia sintética têm dado aos pesquisadores as ferramentas necessárias para modificar o código genético natural dentro de organismos vivos, e até mesmo reescrever a "receita universal da vida".

"O que nós fizemos foi pegar a biologia sintética e transformá-la para nos dar uma biologia real que foi sintetizada," explicou Rinehart.

A equipe criou uma nova forma de influenciar o comportamento das proteínas - que são as responsáveis por realizar quase todas as funções da vida.

Síntese artificial de proteína

Em vez de criar algo novo na natureza, os cientistas essencialmente induziram a fosforilação, um processo fundamental que ocorre em todas as formas de vida e que pode mudar drasticamente a função de uma proteína.

As regras para a fosforilação de proteínas não são diretamente codificadas no DNA, o que ocorre, ao contrário, após a proteína ser feita.

Os pesquisadores fundamentalmente reescreveram essas regras, expandindo o código genético da E. coli para incluir fosfoserina e, pela primeira vez, dirigiram a fosforilação da proteína através do DNA.

Esta nova tecnologia permitirá a produção de proteínas humanas com seus sítios de fosforilação que ocorrem naturalmente, um estado crucial para a compreensão dos processos subjacentes às doenças.

Brincando com as proteínas

Até agora, os cientistas não tinham a capacidade de estudar as proteínas em seu estado fosforilado, ou ativo. Isto tem dificultado a pesquisa em doenças como o câncer, que é marcado por níveis altos e danosos de ativação de proteínas.

"O que estamos fazendo é brincando com os interruptores biológicos - ligando e desligando proteínas - o que nos dará uma forma completamente nova para estudar doenças e, esperamos, orientar a descoberta de novas drogas," disse Rinehart.

Os pesquisadores agora estão tentando criar proteínas em estados que se sabe estarem associados ao câncer, diabetes tipo 2 e hipertensão. E eles antecipam que sua técnica pode ser usada para qualquer tipo de proteína.

Mosquito infectado com bactéria não transmite dengue

A equipe do professor Scott O'Neill, da Universidade de Monash, na Austrália, acaba de realizar um experimento inédito e controverso.

Os cientistas descobriram que a bactéria Wolbachia pipientis - que, ao que se sabe, ataca apenas insetos - consegue reduzir a capacidade do mosquito Aedes aegypti de transmitir a dengue.

Ou seja, em vez de trabalhar em uma vacina para proteger os humanos da dengue, a equipe australiana tornou o próprio pernilongo "imune" à dengue - os cientistas falam em "redução da suscetibilidade do mosquito à dengue".

Desta forma, o Aedes aegypti pára de transmitir a dengue para os humanos.

Desconhecimentos

Como a cepa wMel da bactéria Wolbachia impede o vírus de se replicar no mosquito é algo "ainda não totalmente compreendido", segundo o Dr. O'Neill.

Ele especula que há indícios sugerindo que a bactéria "compete por recursos sub-celulares limitados exigidos pela replicação do vírus".

É este nível de desconhecimento que levanta suspeitas de alguns cientistas, que afirmam ser muito difícil avaliar os efeitos amplos da inserção de um novo organismo em um ambiente no qual ele não existe naturalmente.

Mas os resultados iniciais, exclusivamente sobre a capacidade dos mosquitos transmitirem a dengue, parecem muito promissores.

Bactéria contra a dengue

"A pesquisa publicada hoje descreve a implantação bem-sucedida de uma cepa de Wolbachia particularmente promissora dentro do mosquito da dengue em laboratório, sua subsequente capacidade para reduzir o potencial de transmissão do mosquito da dengue, e também a introdução bem-sucedida dessa mesma cepa de Wolbachia em populações de mosquitos selvagens na Austrália," disse O'Neill, referindo aos dois artigos relatando a pesquisa, publicados pela revista Nature.

No experimento, os cientistas liberaram 300 mil mosquitos adultos, infectados com a bactéria em laboratório, em duas áreas suburbanas da região de Cairns, na Austrália, ao longo de um período de dez semanas.

Cerca de três meses depois, a maior parte da população de Aedes aegypti da região - capturados pelos cientistas - já estava infectada com a bactéria, tendo-se tornado, portanto, incapaz de transmitir a dengue.

"O teste de campo envolveu a liberação dos pernilongos com Wolbachia a cada semana, durante 10 semanas. Cinco semanas após a soltura final foi determinado que 100 por cento dos mosquitos em um local carregavam a Wolbachia e 90 por cento na outra. Foi um grande dia," comemorou o professor O'Neill.

Longevidade do mosquito

O pesquisador afirma que pretende agora fazer os mesmos testes na Tailândia, no Vietnã e no Brasil.

O grupo tem como colaborador no Brasil o Dr. Luciano Moreira, do Centro de Pesquisas René Rachou, da Fiocruz, em Belo Horizonte.

Moreira participou dos estudos iniciais que levaram a este novo teste, quando os cientistas descobriram que uma outra cepa da Wolbachia reduzia o tempo de vida do Aedes aegypti.

Bactéria pode ajudar a controlar mosquito da dengue

Agora, contudo, o grupo australiano afirma que a redução no tempo de vida diminui a chance de transmissão da bactéria entre os pernilongos, o que os levou a escolher uma cepa que não apresenta redução da longevidade.

Alterações genéticas sobre o mosquito

Devido à ineficiência do combate à dengue com inseticidas e com a conscientização da população, vários grupos ao redor do mundo, inclusive no Brasil, trabalham com alternativas de ação genética sobre o mosquito Aedes aegypti.

Um grupo da USP está desenvolvendo uma técnica para a produção de mosquitos geneticamente modificados que, ao serem liberados na natureza, podem contribuir para o controle dos pernilongos domésticos:

Pernilongo geneticamente modificado pode virar inseticida não-tóxico

Um grupo internacional, liderado por um brasileiro, desenvolveu uma técnica genética diferente, que atua na reprodução do mosquito Aedes aegypti:

Inseticida genético impede reprodução do mosquito da dengue

A abordagem de uma outra equipe, dos Estados Unidos e do Reino Unido, foi fazer modificações genéticas para que as fêmeas do mosquito não desenvolvam asas:

Mosquito transgênico sem asas ajuda a combater a dengue

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Fusão nuclear: sonho da energia das estrelas continua brilhando

Em busca de uma alternativa para a matriz energética mundial, muitos cientistas acreditam que só a energia das estrelas pode representar um passo decisivo para a humanidade.

Às voltas com a sujeira e os riscos causados pela fissão nuclear, ainda debatendo se os biocombustíveis valem a pena ou não, o mundo se vê às voltas com uma matriz essencialmente baseada no petróleo e seus parentes próximos, o carvão e o gás natural.

Para achar uma saída desse beco, as duas únicas tecnologias com potencial disruptivo são a fotossíntese artificial e a fusão nuclear.

Os experimentos com folhas artificiais estão apenas começando. Mas o homem sonha em domar a fusão nuclear desde que Hans Bethe explicou de onde as estrelas tiravam tanta energia.

Tentativas de produzir a fusão nuclear

A primeira tentativa de produzir a fusão nuclear na Terra não é de boa lembrança: em 1º de Novembro de 1952, os Estados Unidos usaram uma bomba similar à usada em Hiroshima apenas para dar a ignição na primeira bomba de hidrogênio. Funcionou, mas a coisa se mostrou tão perigosamente descontrolada que o projeto foi deixado de lado.

O recorde mundial de fusão nuclear hoje pertence ao reator tokamak do JET (Joint European Torus), no Reino Unido. Com 15 metros de diâmetro e 12 metros de altura, ele consumiu 20 MW para produzir 16 MW - mas a fusão nuclear se sustentou por menos de 10 segundos.

Hoje, todos os esforços para bater esse recorde e gerar energia são pacíficos - ao menos os que se conhece. E os projetos de fusão nuclear não são mais exclusividade dos governos e suas universidades: já há empresas privadas trabalhando na área.

ITER

O maior desses esforços é o ITER, sigla em inglês de Reator Internacional Termonuclear Experimental, que começou a ser erguido em Cadarache, na França.

Com um investimento planejado de US$21 bilhões, o projeto pretende consumir 50 50 megawatts (MW) de energia para dar partida em uma produção de 500 MW. Em 2027, se tudo der certo.

O problema é que ninguém sabe se vai dar certo. Muitos físicos dizem que não vai funcionar. Outros afirmam que o ITER funcionará como um excelente laboratório de física, mas nunca será uma usina de geração de energia eficiente.

É hora de descobrir como o Universo faz as coisas explodirem

O ITER usará um reator do tipo tokamak, que usa um gigantesco campo magnético para confinar um plasma que deverá atingir uma temperatura de 45 milhões de graus Celsius para dar partida na fusão de deutério-trício.

Se funcionar, um quilograma (kg) de combustível de fusão vai gerar tanta energia quanto 10 milhões de kg de carvão.

Outro experimento já atingiu 25 milhões de graus Celsius, ainda abaixo do ponto de partida da fusão. Mas os projetistas do ITER confiam em seu 18 gigantescos ímãs supercondutores, cada um pesando 360 toneladas, para confinar uma quantidade de plasma suficiente para chegar lá.

Ignitor

O Ignitor é um projeto conjunto entre a Itália e a Rússia, bem menos ambicioso que o ITER.

O Ignitor será na verdade uma versão ampliada do Alcator C-Mod, desenvolvido pela equipe do professor Bruno Coppi, do MIT.

O reator, que está sendo erguido nas proximidades de Moscou, terá aproximadamente o dobro do tamanho do Alcator, com uma câmara principal em forma de anel com 1,3 metro de diâmetro - a câmara do ITER terá 6,2 metros de diâmetro.

O Alcator não nasceu para gerar energia, mas como um laboratório para estudar as estrelas.

Ao longo dos anos, os cientistas foram aprimorando seus detalhes técnicos, a ponto de atingirem um estágio no qual eles acreditam ser viável usar a tecnologia para produzir temperaturas suficientes para iniciar a fusão nuclear.

Como estão trabalhando em uma área desconhecida, os cientistas parecem mais interessados em trocar experiências do que em competir. Evgeny Velikhov, responsável pelo lado russo do projeto, também é membro do conselho do ITER.

Mas o Dr. Coppi não se cansa de dizer, entrevista após entrevista, que, mesmo que o Ignitor nunca gere mais energia do que consumir, ainda assim a astrofísica terá muito a ganhar com o experimento.

Sterellator

O tokamak não é o único caminho para tentar domar a fusão nuclear.

O projeto Wendelstein 7-X, do Instituto Max Planck, da Alemanha, está construindo um reator de fusão do tipo stellarator - ele será o maior do mundo desse tipo.

Um tokamak é alimentado por uma corrente de plasma. Essa corrente fornece uma parte do campo magnético responsável por isolar o próprio plasma das paredes do reator. O grande problema é evitar as "disrupções", as instabilidades do plasma circulante pelo torus.

Um reator do tipo stellarator não tem corrente, eliminando de pronto o problema das instabilidades do plasma. Esse tipo de reator tem um desenho esquisito, mas também tem seus próprios problemas, como uma tendência a perder energia.

Cada stellarator foge à sua própria maneira do tipo "clássico", fazendo modificações e otimizações que tentam coibir os defeitos o obter um funcionamento contínuo.

O Wendelstein 7-X terá 50 bobinas supercondutoras, medindo 3,5 metros de altura cada uma, para gerar o campo magnético primário. Para completar o sistema de contenção do plasma será usada uma camada adicional com 20 bobinas planares, colocadas sobre as primeiras, que terão o papel adicional de permitir o controle da intensidade do campo magnético.

O conjunto todo é contido dentro de uma estrutura de 16 metros de diâmetro. Uma usina de refrigeração fornecerá 5.000 Watts de hélio líquido para manter a supercondução dos fios que formam as bobinas.

O Wendelstein 7-X será um reator de pesquisa, sem intenção de produzir energia. Na verdade, a intenção é demonstrar a viabilidade da construção de uma usina de fusão nuclear usando um reator do tipo stellarator. Se tudo ocorrer segundo o cronograma, o reator deverá entrar em funcionamento em 2014.

Fusão nuclear com laser

O projeto europeu Hiper (sigla em inglês de Pesquisa de Energia Laser de Alta Potência) pretende atingir as altas temperaturas necessárias para iniciar a fusão nuclear usando um equipamento de raio laser do tamanho de um estádio de futebol.

Um laser de alta potência vai comprimir átomos de hidrogênio para conseguir uma densidade 30 vezes maior do que a do chumbo.

Um segundo laser vai aumentar a temperatura do hidrogênio comprimido acima dos 100 mihões de graus Celsius - ao menos é o que os cálculos indicam.

Nessas condições, os núcleos do hidrogênio deverão se fundir para formar hélio.

Iniciado em 2008, o Hiper é financiado pela Comissão Europeia e envolve 26 instituições de dez países.

Motor de fusão

Os cientistas da empresa privada Helion Energy são bem mais comedidos do que seus parceiros institucionais.

Seu reator de fusão nuclear é um equipamento cilíndrico de 16 metros de comprimento e pouco mais de um metro de diâmetro.

Chamado de "motor de fusão", o reator não usará supermagnetos supercondutores mantidos em temperaturas criogênicas: ele usará um processo conhecido como configuração de campo reverso.

Em vez de confinar o plasma em uma estrutura toroidal, como no tokamak, o motor de fusão vai acelerar duas pequenas bolas de plasma uma em direção à outra.

Manter o plasma isolado em um aparato linear é muito mais simples do que o formato toroidal, exigindo um campo magnético menos intenso e mais fácil de controlar. É por isso que o reator é tão menor do que seus concorrentes.

Se os cálculos estiverem corretos, a colisão deverá gerar calor suficiente para fundir os núcleos dos átomos, aquecê-los e iniciar a fusão de forma sustentada.

Como a fusão ocorre em um ponto determinado no espaço é mais fácil também recolher os nêutrons gerados. Os nêutrons são essenciais para gerar o combustível da fusão.

E, se eles escaparem, podem tornar radioativas as peças metálicas do equipamento com as quais entrarem em contato - isso acontecerá no ITER, que deverá trocar as partes internas do seu reator periodicamente.

O protótipo do motor de fusão atingiu uma temperatura de 25 milhões de graus Celsius, bem abaixo do necessário. Mas os cientistas calculam que a temperatura necessária será alcançada com um equipamento apenas três vezes maior.

A NASA e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos já investiram US$5 milhões na empresa, que agora está procurando parceiros privados para levantar mais US$20 milhões, necessários para construir a versão final do seu motor de fusão.

Fusão geral

A empresa canadense General Fusion está usando uma outra abordagem para tentar obter a fusão nuclear sustentada.

A técnica chama-se fusão de plasma magnetizado e consiste em iniciar a fusão em um plasma comprimido de forma intensa e rápida no interior de uma esfera giratória de metal líquido.

O reator funciona em ciclos sequenciais, com cada compressão do plasma magnetizado produzindo um "disparo" de energia gerada pela fusão.

São quatro ciclos: criação do plasma de deutério e trício, aprisionamento do plasma em um campo magnético, compressão do plasma magnetizado, gerando a fusão e, finalmente, captura do calor gerado pela fusão para uso em uma usina termoelétrica.

Os resultados ainda são modestos: segundo a empresa, o aparato produziu uma temperatura de 5 milhões de graus Celsius durante 1 microssegundo.

Mas a General Fusion tem mais dinheiro para construir versões maiores do seu reator: os US$30 milhões foram levantados entre investidores privados, entre os quais Jeff Bezos, da Amazon.

Fusão secreta

Há uma outra empresa privada na área, chamada Tri Alpha Energy, que não gosta de aparecer e nem divulga seus projetos, mas que aparentemente está usando um conceito criado pelos físicos Norman Rostoker e Hendrik Monkhorst.

A ideia é misturar hidrogênio e boro-11 em um plasma de alta temperatura para gerar a fusão.

O processo de confinamento usa a mesma configuração de campo reverso, mas aparentemente mantendo toda a energia de entrada dentro do reator - os elétrons do combustível seriam confinados eletrostaticamente e os íons seriam aprisionados magneticamente.

Os pesquisadores acreditam que, com o calor e a densidade adequadas, esses íons vão se fundir para liberar energia.

Recentemente circularam boatos de que a empresa teria levantado US$90 milhões, tendo entre seus investidores Paul Allen, cofundador da Microsoft. Mas as empresas de capital de risco apontadas nos boatos não listam a empresa em sua carteira de investimentos.

Em um artigo científico publicado em 2010, seus cientistas afirmam ter alcançado uma temperatura de 5 milhões de graus Celsius durante 2 milissegundos.

Já houve vários boatos sobre a iminência de um teste "no ano que vem", que ainda não aconteceu. Os mais otimistas opinam que uma versão comercial do reator Rostoker/Monkhorst - capaz de produzir mais energia do que consome - não sairá antes de 2020.

Fusão nuclear a frio

Há também propostas mais controversas para a fusão nuclear, embora não voltadas especificamente para a produção de energia.

A principal delas é a chamada fusão nuclear a frio, ou fusão de baixa energia, que mostra os indícios da fusão por meio dos nêutrons gerados no processo - pouquíssimos nêutrons, em comparação com os experimentos que pensam em gerar energia.

A ideia surgiu em 1989, quando Martin Fleishmann e Stanley Pons afirmaram ter verificado a fusão nuclear em uma célula eletrolítica. Mas nenhum outro grupo conseguiu reproduzir o experimento.

A esperança renasceu em 2009, quando Pamela Mosier-Boss e sua equipe modificaram ligeiramente a célula eletrolítica de Fleishmann e Pons e tiveram resultados animadores, ainda que frágeis demais para qualquer uso prático.

Mas a fusão nuclear a frio só voltou a ser levada a sério em 2010, quando a Sociedade Americana de Química promoveu um evento de dois dias exclusivamente para discutir o assunto. Deste o fiasco inicial, quem se atrevia a pesquisar a área preferia trabalhar em silêncio.

Foram mais 50 apresentações de experimentos que apresentaram resultados significativos, suficientes para colocar o assunto em pauta novamente. Mas ninguém sonha em usar a fusão a frio para geração de energia.

Fusão por cavitação

Pelo menos três grupos se envolveram em uma pretensa fusão nuclear em um equipamento de mesa, desde que Rusi Taleyarkhan e seus colegas do Laboratório Nacional Oak Ridge afirmaram ter conseguido iniciar a fusão pelo colapso de microbolhas.

Seth Putterman, da Universidade da Califórnia, fez uma demonstração semelhante em 2005, mas usando o aquecimento de um cristal em um ambiente de deutério. A produção de nêutrons, contudo, foi muito pequena, e os cientistas nunca chegaram a afirmar que a técnica seria útil para a geração de energia.

No mesmo ano, uma equipe da Universidade Purdue afirmou ter confirmado o experimento de Taleyarkhan, baseado na cavitação de microbolhas.

Contudo, depois da contestação de outros cientistas, a Universidade fez uma sindicância e concluiu que Yiban Xu e Adam Butt haviam falseado os resultados.

NASA anuncia missões de demonstração tecnológica

A NASA selecionou três propostas para o seu programa "Missões de Demonstração Tecnológica".

Os projetos são voltados para a comunicação espacial, propulsão sem combustível, usando velas solares, e um relógio atômico para melhorar a navegação espacial.

Os três projetos agora vão para a etapa de construção e preparação para o lançamento ao espaço.

"Ao investir em tecnologias disruptivas, de alto retorno, que a indústria não tem à mão hoje, a NASA amadurece as tecnologias necessárias para as suas missões futuras, ao mesmo tempo que avalia as capacidades e reduz o custo das atividades espaciais comerciais e governamentais," disse a agência em comunicado.

Comunicação espacial a laser

O projeto LCRD (Laser Communications Relay Demonstration) consistirá em uma demonstração confiável, segura e barata de uma tecnologia de comunicação óptica que possa ser inserida em outras missões, tanto nas proximidades da Terra quanto no espaço profundo.

As comunicações ópticas - também conhecidas como comunicação a laser, ou lasercom - pretendem aumentar a largura de banda disponível para as futuras missões comunicarem-se com a Terra.

Um equipamento desses fornecerá taxas de transferência de dados significativamente superiores aos sistemas de rádio usados hoje, usando um equipamento com praticamente a mesma massa, volume e potência.

Por exemplo, a sonda MRO (Mars Reconnaissance Orbiter) leva 90 minutos para transmitir uma única foto de Marte em alta resolução. Com um sistema a laser, com capacidade de 100 Mbps ou mais, essa mesma foto chegaria à Terra em cerca de 5 minutos.

A comunicação espacial a laser também permitirá o estabelecimento de uma "presença virtual" no espaço, em outro planeta ou em um outro corpo do Sistema Solar.

Nave a vela solar

A empresa L'Garde Inc. ficará responsável por construir uma sonda espacial sem combustível, movida unicamente por uma vela solar.

Até agora, os experimentos com velas solares concentraram-se quase unicamente no próprio sistema de propulsão, sem uma carga científica útil. O experimento mais avançado nessa área é o veleiro espacial Ikaros, da Agência Espacial Japonesa (JAXA).

O veleiro espacial terá uma vela solar de 38 metros quadrados.

A NASA planeja usar a tecnologia para tirar de órbita satélites artificiais que chegaram ao fim da vida útil e lixo espacial.

Satélite gari pode limpar lixo espacial

Outro projeto é usar as velas solares para manter a altitude de estações espaciais. Hoje, a Estação Espacial Internacional depende de combustível para ajustar sua altitude periodicamente - e esse combustível deve ser levado para lá por foguetes.

Uma vela solar também permitiria o lançamento de satélites "geopolares", que poderiam observar os pólos da Terra - ou de planetas próximos - continuamente, com grandes vantagens sobre os satélites geoestacionários atuais.

Uma sonda espacial situada nos pontos de Lagrange poderia usar suas velas solares para ajustar continuamente sua posição em relação à Terra e ao Sol, melhorando o tempo de alerta das tempestades solares em até 45 minutos.

Finalmente, as velas solares tornarão mais baratas e mais simples as missões a planetas mais distantes e até mais longe.

Embora até poucos anos atrás houvesse grande ceticismo na comunidade científica sobre se as velas solares sequer funcionariam, agora que elas já foram demonstradas na prática há pesquisadores defendendo que elas seriam úteis até mesmo além da fronteira do Sistema Solar.

Relógio atômico espacial

O Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) ficará incumbido de construir um relógio atômico miniaturizado, que fornecerá a precisão e a estabilidade necessárias para uma navegação espacial mais precisa.

Futuros satélites de GPS com seus próprios relógios atômicos terão uma precisão elevada em mais de 100 vezes.

O DASC (Deep Space Atomic Clock) usará a tecnologia de íons de mercúrio.

Um relógio atômico no espaço aumentará a resolução dos dados de navegação por um fator de dois ou três, permitindo um rastreamento muito mais preciso das naves pelas estações em terra.

Além da navegação, a melhoria na quantidade e na qualidade dos dados melhorará em até 10 vezes a coleta de dados gravitacionais e as observações científicas de ocultação, usadas para descobrir e estudar planetas extra-solares (ou exoplanetas).

A disponibilidade de um relógio atômico a bordo significará que as sondas e naves espaciais não precisarão ficar repassando suas posições a cada instrução enviada da Terra - ou seja, o controle de navegação poderá ser feito com uma única via de comunicação.

Voltando ao exemplo da sonda MRO, hoje o link de comunicação com a Terra é compartilhada entre navegação e dados científicos. Com um relógio atômico, uma sonda similar teria o canal de downlink exclusivamente para a ciência.

Segundo a NASA, só a redução do tempo de uso das antenas terrestres representaria uma economia de US$11 milhões para a missão.

Trojan letal ameaça usuários de Android

Pesquisadores tornaram público o que talvez seja o mais perigoso malware para Android já descoberto: um Trojan que explora o hack GingerBreak, aplicável ao Android 2.3 e que se tornou conhecido a partir de abril.

De acordo com uma equipe da Universidade Estadual da Carolina do Norte (EUA), que analisou o malware com apoio da empresa chinesa de segurança móvel NetQin, o 'GingerMaster' carrega várias das características da crescente família de Trojans Android que atualmente circulam em sites de terceiros na China, mas com algumas inovações tão interessantes quanto perigosas.

Embutido em um app aparentemente legítimo feito para mostrar fotos de mulheres, o GingerMaster captura o máximo de dados pessoais do usuário - incluindo o número do celular e seu IMEI - e os envia para um servidor remoto. Em seguida, o servidor começará a baixar discretamente o malware, que explora o hack GingerBreak e que, uma vez instalado, tomará completamente o controle do smartphone.

Como é do tipo root, este hack será capaz de burlar o sistema do Android que controla as permissões de apps - e é isso que revela o poder destrutivo deste ataque. Diante de um acesso tão profundo ao sistema, os programas de segurança do Android serão incapazes de barrar a invasão e, para se livrar da praga, muitos usuários terão de apagar completamente o conteúdo do aparelho e voltar às configurações de fábrica.

As versões vulneráveis do Android são a 2.3.3 (Gingerbread) e, segundo comentários, a 2.2 (Froyo), na qual o Trojan também pode ser acesso root. A Google corrigiu a vulnerabilidade assim que a descobriu, em abril, mas é improvável que todos os usuários tenham recebido o update. As operadoras mostram-se relutantes em entregar correções a menos que sejam absolutamente necessárias, dada a quantidade de serviços de suporte técnico envolvido.

O modo mais fácil de evitar este malware, por enquanto, é simplesmente nunca usar sites de terceiros para baixar apps e confiar no Android Market da Google.

Fonte: IDG Now!

Encontradas estrelas mais frias do Universo

Usando dados do Telescópio WISE (Wide-field Infrared Survey Explorer), astrônomos da NASA descobriram as estrelas mais frias já encontradas.

Elas têm temperaturas semelhantes às do corpo humano, ou até menores.

Esta concepção artística mostra como deve se parecer uma "anã Y". As anãs Y estréiam a classe de corpos estelares mais frios que se conhece.

Como os astrônomos ainda não detectaram anãs Y nos comprimentos de onda visível, que vemos com nossos olhos, a escolha de uma cor roxa para ilustrá-las foi feita por razões artísticas.

Os astrônomos caçam esses corpos celestes escuros há mais de uma década, sem sucesso. É quase impossível enxergá-las usando telescópios de luz visível porque, sendo tão frias, praticamente não brilham.

O telescópio Wise encontrou-as usando sua visão de infravermelho, sensível ao calor.

O telescópio descobriu seis anãs Y, variando em temperaturas atmosféricas de 175 graus Celsius até 25 graus Celsius.

Anãs marrons

As anãs Y pertencem a uma família maior de objetos chamados anãs marrons.

Anãs marrons começam suas vidas como estrelas, mas não chegam a acumular massa suficiente para fundir átomos de forma constante em seus núcleos e brilhar com a luz das estrelas. Em vez disso, elas vão se apagando e esfriando com o tempo, emitindo a maior parte de sua luz em comprimentos de onda infravermelha.

Classificação de estrelas

O esquema de classificação estelar descreve estrelas de todas as temperaturas, começando com as mais quentes, as estrelas "O", e agora terminando com as frias anãs Y.

A escala inteira inclui as classes: O, B, A, F, G, K, M, L, T, Y. O nosso Sol amarelo pertence à classe G de estrelas. Estrelas M, para comparação, são mais frias do que o nosso Sol e mais avermelhadas.

Enquanto as classes O até K são consideradas estrelas, os objetos M e L são uma mistura de estrelas e anãs marrons, e os objetos T e Y são anãs marrons puras.

O termo "anãs marrons" foi escolhido porque, quando foram descobertas, os astrônomos também não sabiam que cores esses objetos realmente teriam nos comprimentos de onda visíveis, e marrom não é uma verdadeira cor da luz (não existem "fótons marrons").

Os astrônomos agora sabem que as anãs T parecem avermelhadas, ou magenta, aos nossos olhos. Mas eles não estão certos de que cor são as anãs Y, uma vez que esses objetos não foram detectados em comprimentos de onda visíveis.

Anãs marrons

Esta concepção artística ilustra como as anãs marrons de diferentes tipos apareceriam para um viajante interestelar hipotético que passasse nas proximidades de cada uma.

À esquerda está uma anã L, no meio uma anã T e, à direita, uma anã Y.

Os objetos são progressivamente mais frios em termos de temperaturas atmosféricas conforme você se move da esquerda para a direita.

De forma surpreendente, nesta visualização a nave espacial do nosso intrépido viajante estaria à mesma distância de cada objeto.

Isto ilustra uma propriedade incomum das anãs marrons - todas elas têm as mesmas dimensões, aproximadamente o tamanho do planeta Júpiter, independentemente da sua massa.

Esta disparidade de massa pode ser de quinze vezes ou mais, quando se compara uma anã L com uma anã Y, apesar do fato de os dois objetos terem o mesmo raio.

Elas também têm temperaturas atmosféricas muito diferentes.

Uma anã L típica tem uma temperatura de 1.400 graus Celsius. Uma anã T típica tem uma temperatura de 900 graus Celsius.

A anã Y agora descoberta tem uma temperatura que alcança os 25 graus Celsius.

Especialista alerta para "ameaça dos algoritmos"

Um especialista em algoritmos alertou para as consequências da influência cada vez maior dos sistemas de códigos operacionais em diversos aspectos da vida das pessoas.

Em uma palestra durante a conferência TED no mês de julho, na Escócia, o americano Kevin Slavin disse que "a matemática que os computadores usam para decidir as coisas" está se infiltrando em diferentes áreas as nossas vidas.

Slavin disse que os "serviços inteligentes" oferecidos por lojas de internet - que calculam livros e filmes nos quais o cliente pode estar interessado -, por sites como o Facebook e pelos mecanismos de busca como o Google comprovam que operações computacionais complexas e invisíveis controlam cada vez mais a relação das pessoas com o mundo eletrônico.

Como exemplos, ele citou um "robô-faxineiro" que mapeia a melhor maneira de realizar os afazeres domésticos e os algoritmos que estão gradualmente controlando os negócios em Wall Street e o mercado financeiro.

"Estamos escrevendo coisas que não podemos mais ler", alertou o especialista. "Nós criamos algo ilegível e perdemos a noção do que realmente está acontecendo no mundo que criamos", disse ele.

Livro milionário

De acordo com Slavin, o caso recente de erro nos algoritmos usados pela livraria online Amazon é um dos principais exemplos do caos que pode ser instalado quando um código se torna inteligente o suficiente para operar sem a intervenção humana.

No início do ano, o algoritmo que regula os preços da loja de livros pareceu entrar em guerra consigo mesmo.

Os valores dos produtos começaram a aumentar em competição uns com os outros e um dos livros, The Making of a Fly (A construção de uma mosca, em tradução livre) - um livro sobre a biologia molecular de uma mosca - chegou a custar US$ 23,6 milhões (R$ 37,7 milhões).

Slavin afirma que, na medida que os códigos matemáticos se tornam mais sofisticados, eles se infiltram até mesmo em nossas preferências e decidem que produtos culturais estarão disponíveis para nós.

Decidindo as vidas virtuais

A empresa britânica Epagogix está levando este conceito a sua conclusão lógica e usando algoritmos para prever o que faz com que um filme seja um sucesso de bilheteria.

O sistema usa uma série de medidas - o roteiro, a trama, os atores, as locações - e os cruza com as bilheterias de outros filmes similares para prever quanto dinheiro o novo produto irá ganhar.

De acordo com o diretor-executivo da empresa, Nick Meaney, o código "ajudou estúdios a tomarem decisões sobre fazer ou não fazer um filme".

No caso de um dos projetos - para o qual foi estipulado um custo de produção de 180 milhões de libras (R$ 473 bilhões) - o algoritmo estimou que o filme ganharia somente cerca de 30 milhões de libras nas bilheterias, o que significava que não valia a pena fazê-lo.

No entanto, Meaney diz que o papel dos algoritmos na indústria cinematográfica não é tão grande.

"Filmes são feitos por diversas razões e dizer que nós ditamos que filmes são feitos nos dá mais influência do que temos", disse.

Negócios automáticos

De acordo com Kevin Slavin, até 70% das transações de Wall Street hoje são conduzidas por algoritmos, no que é chamado de "caixa-preta" ou "algo-negócio".

Isso significa que, além de negociantes especializados, banqueiros e corretores agora empregam também milhares de matemáticos e físicos.

Mas Slavin diz que, mesmo com o auxílio de técnicos e especialistas, um algoritmo fora de controle foi o responsável pela chamada "quebra-relâmpago" do dia 6 de maio de 2010, em que uma queda de cinco minutos nas bolsas de valores causou um caos momentâneo.

Um negociador que agiu de má-fé foi considerado o culpado pela queda de 10% no índice Dow Jones mas, na realidade, a culpa era do programa de computador que ele estava usando.

O algoritmo vendeu 75 mil ações com um valor de 2,6 bilhões de libras em somente 20 minutos, fazendo com que outros sistemas de negociação rápida fizessem o mesmo.

A partir deste episódio, os reguladores foram forçados a introduzir mecanismos que interrompem as negociações se as máquinas começarem a se comportar de modo incorreto.

Para Slavin, na medida que os algoritmos expandem sua influência para além das máquinas, é chegada a hora de saber exatamente o que eles sabem e se ainda há tempo de domá-los.

Fonte: BBC