quinta-feira, 17 de julho de 2008

DTV e HDTV, a TV digital

Mal o Brasil entra na era da televisão digital (DTV ou digital television, para os íntimos), e o acrônimo HDTV ganha força na mídia, e quem sabe um dia também na boca do povo. Mas, HDTV, que significa High Definition TeleVision, a rigor deveria se chamar TVAD ou TeleVisão de Alta Definição.

Só que, mais uma vez, o acrônimo em língua inglesa irá ter prevalência, assim como outros acrônimos e termos oriundos da informática, tais como PC (de personal computer) ou HD (hard disk). E por que não incluir também o termo home theater, que até hoje nunca teve tradução?

Na prática tudo isso pouco importa; o que realmente conta é que estamos diante de alguma coisa nova que já pode ser vista, mas pouco compreendida, em função da enorme complexidade que o termo HDTV representa.

A imagem de alta definição comporta atualmente os sinais de 720p (720 linhas de resolução vertical, em varredura progressiva com 1280 pixels cada uma), 1080i e 1080p (1080 linhas de resolução vertical, com 1920 pixels cada uma, em varredura entrelaçada e progressiva, respectivamente), mas a DTV chega, no máximo, a 1080i, e isso já é muito.

Note-se que o vídeo digital por excelência traduz-se pela varredura progressiva (todo o quadro da imagem é montado em seqüência), mas a origem analógica da HDTV é mostrada com o sinal de 1080i, ainda oriundo da tecnologia do tubo de imagem (CRT).

Se a tela do usuário for moderna, é possível que a imagem de 1080i seja convertida para algum sinal progressivo, de qualquer maneira. Na realidade, uma série de outras conversões vai ter que ocorrer, à revelia do usuário e de forma absolutamente transparente.

Em função disso, o termo HDTV deveria se referir principalmente à alta qualidade que a imagem de vídeo poderia alcançar, de preferência com o melhor áudio possível ao seu lado. Mas, para que isso se transforme em realidade, não basta uma emissora instalar câmeras HD no estúdio e sair gravando a fonte automaticamente. Este processo pode até dar um resultado que impressione as platéias, mas ele não reflete necessariamente o potencial que o sinal de HDTV pode mostrar.

E a explicação para isso é mais simples do que se imagina: em primeiro lugar, quando se trata de capturar uma imagem qualquer, uma série de parâmetros importantes entra em jogo: luz ambiente, cor, lentes, etc. O leitor mesmo pode fazer um simples teste, uma vez munido de uma câmera fotográfica digital decente: basta tentar fazer fotos em diferentes horários do dia, quando então notará que a cor varia de acordo com a luz incidente na foto. Por causa disso muitas câmeras à venda hoje em dia possuem programas para compensar essas diferenças.

Em um estúdio ou em tomadas em locação (por exemplo, ao ar livre) a iluminação é peça-chave para evitar problemas - e mesmo assim hoje em dia o processamento digital de imagens ainda poderá passar por pós-processamento, para evitar distorções de cor do material capturado. Por causa disso, um exército de novos especialistas técnicos é necessário, pessoas que sejam capazes de pós-processar este material de forma competente. Para isso existem os cursos de formação de pessoal na área, que, neste caso, não podem ser negligenciados, caso se tenha um mínimo de preocupação com a qualidade final do programa a ser transmitido.

Na história do cinema podem ser observados exemplos de cineastas que têm preferências por controle absoluto de iluminação de cena, como foi o caso de Alfred Hitchcock, que detestava filmagens em locação. Ou diretores como John Ford, ao contrário, que detestava estúdios e procurava sempre filmagens ao ar livre, sem quase ou nenhuma preocupação com a iluminação. É claro que ele dependia das habilidades do seu diretor de fotografia para fazer tudo funcionar de acordo com as intenções do roteiro, por isso até hoje ninguém pode ser queixar de falhas de estética ou iluminação nos seus filmes.

No caso específico do broadcasting brasileiro, se me permitem a ilação, os resultados são imprevisíveis. Existem aqueles profissionais com enorme preocupação com a qualidade final do produto gravado, mas existem outros que têm uma tendência mórbida em achar que o público aqui assiste qualquer coisa. Basta olhar os programas atuais de auditório, em várias emissoras, para se constatar o descaso com a qualidade de imagem.

Desnecessário dizer que, se com uma imagem standard a coisa fica feia, com alta definição ela ficará insuportável. Ou seja, com o advento da HDTV, ou essas emissoras tomam jeito, ou irão naufragar no mar de descontentamento daqueles que irão investir pesado num sistema HDTV, sem ver retorno nenhum que justifique este investimento.

Existe ainda um segundo outro aspecto da DTV que é bastante provável ter enorme influência sobre a HDTV: com a transmissão digital vem junto uma decisão, às vezes política, da maneira de se fazer uso das bandas de transmissão: a primeira hipótese seria usar a maior faixa para HDTV e o restante para sinais standard; a segunda seria abdicar da HDTV, para aumentar a oferta em resolução standard.

Aqui, essas duas vertentes poderão tomar caminhos diametralmente opostos.

O sinal digital para a transmissão é comprimido por um codec tipo MPEG-2 e no caso brasileiro, por H.264. A compressão implica em bit-rate variável, e quanto maior o seu valor menor será a compressão necessária e melhor a qualidade da imagem.

Na tentação de comprimir sinal, na mesma banda passante, é possível que haja um sacrifício significativo do sinal de melhor qualidade, para sobrar espaço para o de menor qualidade. Se isso acontecer, pouco irá importar a qualidade do sinal da fonte, porque vai ficar tudo nivelado por baixo! Não pense o leitor que o simples fato do sistema brasileiro de DTV operar com compressão por H.264 isso vai significar a inexistência dos efeitos da compressão de sinal sobre a qualidade do mesmo.

Todos os codecs, mesmo os mais modernos e eficientes, têm limitações que transcendem os seus méritos de suportar uma maior compressão. A maior evidência disso é o que a gente percebe nos discos Blu-Ray, onde MPEG-2 e H.264 se nivelam em qualidade ou em relativa falta de. Aliás, houve uma época em que se fazia críticas ao Blu-Ray por permitir o ingresso do MPEG-2 HD nos discos, que isso depunha contra o formato e outras baboseiras do gênero, mas o tempo mostrou que discos Blu-Ray autorados com MPEG-2 de forma cuidadosa mostraram imagens de excelente nível.

No que se refere à reprodução da cor, o conceito de compressão de sinal também se aplica, e o objetivo, para variar, é economizar espaço de memória.

A compressão do sinal de cor é possível, porque o olho humano reage muito mais às variações de luminância (variação da intensidade luminosa) do que a cada cor individualmente. Assim, o MPEG-2 do DVD, por exemplo, transmite cor por vídeo componente, onde Y (luminância), Cb (crominância do azul) e Cr (crominância do vermelho) estão na proporção de bits 4:2:2. No caso, o H.264 é capaz de suportar YCbCr na proporção de 4:2:0.

A fidelidade de cores (capacidade de se reproduzir tons ou gradações de cor) varia enormemente de uma fonte de sinal para outra. Com a alta definição se deve esperar uma maior fidelidade de gama de cores do que no sinal de TV convencional, mas somente a decisão de comprimir sinal para transmissão em maior ou menor proporção é que irá demonstrar se a cor será afetada.

Se alguém aqui acha que eu estou exagerando com esta estória de compressão de sinal, é porque não conheceu o som das emissoras de FM, quando o FM estéreo começou no Brasil: o som era limpo, com pouca compressão de dinâmica. Motivo: eram poucas emissoras no ar! Com o tempo, o Dentel (que era a Anatel daquela época) mandou as emissoras instalarem compressores de sinal, o que permitiu colar uma emissora na traseira da outra. O resultado imediato foi a perda de qualidade do sinal de áudio, com uma notória ausência da dinâmica original da música reproduzida.

Eu ainda não sei (e se o leitor já sabe, por favor, escreva aí embaixo) qual dessas duas vertentes de exploração de espaço de sinal irá prevalecer no sinal transmitido pelas emissoras. Mesmo não sendo nenhum adepto fervoroso da TV aberta, exceto para telejornais e esporte, eu sinceramente espero que a HDTV não siga o mesmo caminho da FM estéreo.

A DTV brasileira criou uma expectativa positiva de substituição do sinal do ar de má qualidade, motivo, aliás, pelo qual muitas pessoas fazem assinatura de sinais de televisão por satélite ou cabo. No caso, a DTV não precisa necessariamente transmitir HDTV para um grande número de pessoas, ou sinal de áudio multicanal 5.1. E tentar vender esta idéia para quem não tem e nem vai ter uma instalação de home theater a curto prazo é pura demagogia.

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