segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Programas simplificam linguagem de textos na Internet

Pesquisadores da USP de São Carlos estão criando ferramentas capazes de reduzir a complexidade linguística dos textos, substituindo palavras raras (menos frequentes) por palavras mais usuais e dividindo e reorganizando orações longas e complexas.

O objetivo dos programas PorSimples e Facilita é simplificar a leitura de textos em português disponíveis na internet e, com isso, facilitar a compreensão das informações para crianças e adultos em processo de alfabetização ou pessoas com algum tipo de deficiência de leitura.

Já o editor Simplifica é voltado para produtores de conteúdo (escritores, professores, webmasters, jornalistas, por exemplo) que desejam criar textos simplificados adequados ao mesmo público.

Internet inacessível

"Ainda há muito conteúdo textual inacessível a um grande público no Brasil. Dados do IBGE de 2007 apontam 10% de analfabetos e 21,7% de analfabetos funcionais. Há, ainda, pessoas com problemas de leitura devido a derrame cerebral, dislexia, Alzheimer, dentre outros. Mesmo deficientes auditivos, que leem em Libras, quando querem aprender o português precisam de um texto adaptado", explica a coordenadora do PorSimples, Sandra Maria Aluísio.

Os programas estão sendo elaborados com conceitos e ferramentas de uma área conhecida como processamento de linguagem natural (PLN), permitindo melhorar as características dos textos, como a inteligibilidade e a compreensibilidade para cada público-alvo do projeto.

São vários os recursos de linguagem que tornam um texto complexo demais para quem não tem um nível médio de escolaridade: sentenças longas, com vários níveis de subordinação, cláusulas embutidas (relativas), sentenças na voz passiva, uso da ordem não canônica para os componentes de uma sentença, além do uso de palavras de baixa frequência, aumentam a complexidade de um texto.

Simplificação forte e simplificação natural

Uma das técnicas, chamada "simplificação forte", usa um conjunto de regras para tornar uma oração o mais simples possível. Esse tipo de simplificação é destinado a analfabetos funcionais do nível rudimentar, que são capazes de encontrar somente informações explícitas em textos curtos.

Já a "simplificação natural" produz frases mais adequadas para analfabetos funcionais do nível básico, aqueles que leem textos um pouco mais longos e já são capazes de fazer deduções simples para obter informações contidas no texto.

Adaptação de textos

Além da simplificação linguística, existem outros mecanismos de adaptação textual: a simplificação via sumarização e a elaboração. "Textos de revistas e artigos científicos podem ser simplificados pela diminuição de seu tamanho, em uma tarefa bem conhecida de PLN - a sumarização textual. Textos literários também são simplificados pelo uso de resumos, como os resumos de obras clássicas para o vestibular", exemplificou.

Já a elaboração adiciona informação a um texto, visando esclarecer, elaborar e explicar uma informação implícita e tornar explícitas as conexões entre as idéias. O objetivo é tornar um texto mais coerente e limitar a ambiguidade dentro dele.

"Na prática, muitas adaptações envolvem a combinação de simplificação e elaboração. Por exemplo, um professor pode simplificar sentenças difíceis em um texto, enquanto, ao mesmo tempo, adiciona informação contextual para tornar um conceito mais claro. Pode ainda usar redundância para compensar o uso de termos não familiares aos alunos de uma série", disse Sandra.

Retroalimentação

As ferramentas que estão sendo desenvolvidas poderão ser usadas por professores que trabalham com textos da web para ensino da leitura e por editoras para a verificação de adequação de um texto a determinada faixa etária ou nível de escolaridade.

Além de fornecer um parâmetro mais sofisticado para avaliação da inteligibilidade de textos, o PorSimples fornece retroalimentação para os autores, apontando trechos que devem ser simplificados, e como fazê-lo.

"No momento, essas simplificações estão ligadas apenas a estruturas sintáticas, mas já há trabalhos de doutorados em andamento para fazer simplificações no nível léxico, considerando-se a semântica, e no nível textual para melhorar a coesão do texto", contou Sandra.

Da Governança Digital às bulas de remédio

A professora da USP também alerta para a necessidade de adequação de textos em páginas de órgãos públicos, com a crescente ênfase em governança digital, verificando-se a faixa de escolaridade requerida para a compreensão do material disponível.

Da mesma forma, aponta ser fundamental que provedores de conteúdo para educação a distância evitem ambiguidades e problemas de leitura, uma vez que a acessibilidade à linguagem empregada não é percebida diretamente. O mesmo deve ser considerado por aqueles que produzem manuais de instruções, bulas de remédios, contratos jurídicos, entre outros.

"Os prejuízos causados pelo uso indevido de equipamentos ou pela ingestão de medicamentos podem ser imensos se as instruções não forem interpretadas corretamente. Assim como um usuário comum (não especialista em leis) deveria ter o direito de ter acesso a documentos escritos em linguagem acessível", disse.

Segundo Sandra, hoje não há ferramentas para avaliar a adequação das instruções para o público e isso pode ser fornecido pela tecnologia desenvolvida pelo PorSimples. Como são ferramentas web, para serem usadas é necessário apenas um navegador e um computador conectado à internet.

Como estão em fase de desenvolvimento, as ferramentas ainda não foram disponibilizadas para uso público, o que deverá acontecer na próxima etapa da pesquisa. Um protótipo pode ser visto no endereço http://nilc.icmc.usp.br/~matheus/simplifica/.

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